Não Fazer Nada
Priya - Terça-feira, Dezembro 7, 2010
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Eu me permiti relaxar e simplesmente fiquei assim. Dei a mim mesma o tempo todo do universo para relaxar, observando gentilmente o movimento, mas permaneci imóvel.
Há poucos anos eu era ainda estudante do segundo grau em Taiwan, seguindo cegamente um sistema educacional que se concentra unicamente nas notas que você consegue, em quantos erros você cometeu em uma prova e para qual universidade você vai. Eu tinha tarefas escolares, questionários e exames empilhados até minha cabeça - enquanto isso, eu gastava energia extra para garantir que permanecia uma das melhores alunas na classe, uma das melhores amigas entre os amigos, e uma filha obediente aos meus pais.
A um certo ponto, pareceu haver coisas demais acontecendo em minha volta ao mesmo tempo e eu não conseguia lidar com todas elas simultaneamente. Tudo se tornou tão louco que de repente nada fazia qualquer sentido.
Uma noite eu estava tentando estudar para uma prova que seria aplicada no dia seguinte. Eu estava com a cabeça tão abarrotada que não havia absolutamente espaço disponível para enfiar mais qualquer conhecimento. Fechei meu livro e cerrei os olhos, tentando acalmar o tenso caos dentro daquele pequeno espaço atrás dos meus olhos.
Tudo que experimentei foram pensamentos.
Milhões de pensamentos cruzando minha cabeça, algo pior do que o tráfico na Cidade do México. “Eu deveria continuar estudando”, “Ainda não memorizei aquela fórmula”, “E se eu fracassar?”, “Nunca vou conseguir!”, “Não deveria ter dito aquilo ao meu amigo”, “Meu professor ficaria tão decepcionado comigo”… “Talvez eu devesse comer um chocolate agora…”
Nunca na minha vida eu tinha realmente visto o que se passava naquela pequena cabeça taiuanesa da forma como vi naquele momento; normalmente eu estava ocupada demais fazendo tudo que minha mente dizia, para notar quem na verdade estava falando. Naquele momento de exaustão, meu corpo estava cansado demais para reagir ao que minha mente dizia para eu fazer. Ao invés disso, pela primeira vez na minha vida, eu dei a mim mesma permissão para não fazer nada com relação a minha mente.
Foi uma experiência muito diferente não reagir a qualquer pensamento; eles se tornaram pequenos e lamuriantes, e não tão importantes. Parecia como se eu estivesse no meio do movimento, entretanto eu não me movia. Até mais interessante, percebi que no fundo eu não tinha aqueles pensamentos, mas todos eles eram o que as pessoas tinham me dito em algum ponto da minha vida; me disseram que eu deveria estudar, me disseram que eu não era boa em matemática, me disseram que se eu não estudasse muito, eu não teria sucesso… me disseram que meu nome era Graça e que a terra em que estava vivendo se chamava Taiwan. Por um momento percebi que quem eu pensava que era e o que eu pensava que deveria fazer, eram simplesmente crenças que adotei de alguma outra pessoa… então, nesse caso, quem sou eu verdadeiramente?
Sentei-me lá com os olhos fechados provavelmente por mais de uma hora. Foi um dos momentos mais agradáveis da minha vida. Permiti a mim mesma ficar fora do caminho e não tentar controlar o resultado das coisas ou tentar organizar o caos interno. Sentar simplesmente, como se nada mais importasse, porque realmente nada importou naquele período de tempo.
Tratei aquele momento somente como um intervalo de relaxamento. Mais tarde, com imenso esforço, tentei novamente mobilizar minha mente e fiquei ocupada, simplesmente porque o mundo inteiro estava fazendo a mesma coisa, e eu tinha que “seguir o rumo” depois de ter “descansado” bastante.
Depois daquele dia, entretanto, todos os dias eu criava conscientemente um período de tempo, talvez uma hora, ou duas se tivesse sorte, para simplesmente me permitir não fazer nada. Era um período que eu concedia a mim mesma, quando eu não tinha que responder a nenhuma ordem que minha mente me dava. Diariamente, eu fazia tudo da melhor maneira para terminar minhas tarefas e estudos e então, simplesmente sentar ou me deitar na cama e não fazer nada – não adormecendo ou pensando outros pensamentos agradáveis, apenas desfrutando um momento de silêncio no qual eu não tinha que mobilizar constantemente pensamentos do passado e do futuro para manter unido o meu universo; desfrutando um momento em que eu não tinha que pensar DE MODO ALGUM.
Então quando a hora acabava, eu conscientemente voltava a minha corrente de pensamentos. Era difícil voltar conscientemente ao caos da minha mente e tentar prestar atenção à ordem seguinte daquela pequena voz na minha cabeça, mas eu assim fazia porque ainda acreditava que tinha que fazer; eu achava que era a única maneira de “dar prosseguimento à vida” – me envolver em constantes atividades mentais.
Alguns anos mais tarde, quando os mestres Ishaya me disseram que eu não tinha que pensar mais, eu não conseguia entender o conceito de viver para sempre naquele estado desprendido, relaxante. Na realidade, eu não conseguia nem mesmo acreditar que podia desligar minha mente por mais de uma hora por dia e o mundo ainda funcionar perfeitamente. Você quer dizer que eu não tenho que me agarrar a minha mente para existir? Eu não preciso me agarrar a minha identidade para identificar a mim mesma? Eu não precisava pensar e estar no controle - e o mundo estaria OK?
“Não” disseram os mestres Ishaya, “Tudo que você tem que fazer é não fazer nada”.
Bem, isso eu posso fazer! Eu simplesmente não sabia que eu tinha a permissão, isso é tudo.
Então, eu me permiti relaxar, e fiquei assim simplesmente. Concedi a mim mesma o universo inteiro de tempo para relaxar, apenas observei com gentileza o movimento e permaneci imóvel. Às vezes era como ver um rei desagradável exigindo coisas, porém não havia mais servos disponíveis; às vezes era como olhar para uma vítima lamurienta, entretanto eu não podia compreender o que a contrariava.
As coisas estavam sendo realizadas magicamente.Ao não me envolver no caos do passado e do futuro, eu tinha mais atenção disponível para a clareza constante em cada momento; ao não escutar as vozes na minha cabeça, eu estava serena suficientemente para ouvir minha intuição. Tudo se tornou claro. A vida começou a se revelar na minha frente como magia, sem que eu tentasse explicá-la.
Ao me desprender cada vez mais do hábito de pensar - o pensamento do meu nome, o pensamento da minha cultura, o pensamento de quem eu era - eu os vi dissolvidos como bolhas ilusórias, e a experiência subjetiva permaneceu simplesmente silêncio. Observando, escutando e falando silêncio. Silêncio consciente do próprio Silêncio. Minha existência era naturalmente quieta, vazia de movimento e era simples.
Com minha prática e a ajuda constante dos mestres, esta experiência continua a se desdobrar em sua plenitude, mesmo hoje, e experimentalmente, eu sei que Eternamente se revelará, somente Agora.


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